domingo, 5 de março de 2017

Capítulo I

Leila olhou para o céu cinzento, antes de se decidir a sair para o dia frio. Não chovia, mas duvidava que se mantivesse assim por muito tempo. O largo onde desembocavam vários edifícios da faculdade apresentava-se praticamente vazio – mais ninguém contrariaria as constantes mensagens do Inverno, deslocando-se pelas ruas frias e húmidas.
Tinha um trabalho para terminar e, por mais útil que a internet fosse – e ninguém o podia negar -, a biblioteca sempre fora um apelo muito maior, com o cheiro característico das capas dos livros, as estantes com os volumes de diferentes tamanhos e cores. Atraíam-na as páginas cheias de História e de palavras que alguém quisera partilhar. E, invariavelmente, acabava por deambular por entre os corredores e as mesas da biblioteca.
Aquele dia não tinha sido excepção. Porém, agora que se via na iminência de ter de atravessar as ruas debaixo de chuva, não podia evitar uma ponta de recriminação por ter saído naquele fim de tarde, ainda mais sem chapéu-de-chuva.
Sem grandes opções, fechou melhor o casaco, ajeitou o cachecol e o gorro, apertou os livros contra o peito e desceu os poucos degraus da entrada da biblioteca, seguindo em passo acelerado para a residência universitária onde ficava o seu quarto.
Atravessou o largo deserto e contornou o edifício imponente da faculdade de ciências, em direcção à zona das residências universitárias. Apenas o som dos seus passos apressados ecoava, cortando o final de tarde cinzento. Os candeeiros de rua já estavam acesos, forçando a luz amarelada pelas sombras instaladas.
As ruas pareciam demasiado vazias, sem vivalma, o que não seria estranho se não se tratasse de um dia de aulas normal. Leila parou por instantes, olhando em volta. Árvores sem folhas misturadas com outras de folha perene ladeavam as ruas; nos edifícios não se viam luzes acesas. Um vento frio, súbito, atravessou o ar, fazendo rodopiar algumas folhas caídas no chão.
Aconchegou melhor o casaco, os dedos frios a apertarem os livros. Um súbito mau presságio invadiu-a. Sentiu-se assustada, sem perceber porquê. O seu cérebro começou a trabalhar furiosamente, como se procurasse algo. Conhecia cada esquina, cada recanto da universidade, tantas vezes percorrera aquelas ruas, acompanhada, sozinha. Mas, naquele momento, havia algo de estranho a envolvê-la, como uma brisa acentuada de dedos frios a passar-lhe pelo rosto. Instintivamente virou-se, guiada por uma mão invisível. Um burburinho fez-se ouvir, muito baixo, depois aumentando gradualmente, até se assemelhar a uma voz sibilante, cujas palavras se perdiam no ar.
O seu coração disparou. De onde viria aquele som? Sentia a boca seca, uma vontade crescente de desatar a correr para o aconchego do quarto, mas os pés estavam pregados ao chão, a atenção cada vez mais concentrada no murmúrio. Num impulso, e sem que desse por isso, Leila começou a andar na direcção contrária à que seguia anteriormente, guiada mais pelo instinto do que pela razão.
A brisa aumentara sensivelmente, o restolhar das árvores juntando-se aos estranhos murmúrios. Instintivamente, virou à esquerda, cruzando um arco de pedra e deparando-se com um claustro escuro. Parou, confusa.
Inesperadamente, foi como se se tivessem acendido vários focos de luz e as paredes desapareceram ante os seus olhos espantados. O céu abriu-se e uma claridade imensa inundou o horizonte. A súbita luminosidade dificultou-lhe a visão e Leila teve de fechar os olhos, protegendo-os com as mãos. Deu-se subitamente conta de que o vento parara. Já não estava frio.
O espaço onde se encontrava mudara. Leila sentiu-o, mais do que o viu. Lentamente reabriu os olhos, deparando-se com uma superfície brilhante, de um maravilhoso tom dourado. Franziu a testa, enquanto ao cérebro chegava a mensagem enviada pelos olhos. Areia?
Onde estaria? Leila passeou o olhar pelo lugar circundante, identificando uma extensão de areia lisa, que se estendia pelo horizonte e mais além. À sua volta, as paredes tinham desaparecido, o céu brilhava azul, claro, e o sol esticava longos dedos de fogo a toda a volta. Leila rodou sobre ela própria, de olhos arregalados. Para onde se virasse só via quilómetros e quilómetros de areia, pequenas dunas ao longe e… mais nada.
O calor tornou-se insidioso. Levou as mãos trémulas ao cachecol de lã e desenrolou-o, puxando-o, em gestos lentos. Em seguida, fez deslizar o gorro, descobrindo os cabelos escuros, apanhados numa trança larga, ao sol. Tudo isto sem que se desse realmente conta do que estava a fazer. Nada daquilo era real, não percebia o que se estava a passar, mas era impossível estar ali. Saíra da biblioteca e ia para casa. Era pleno Inverno. Nada daquilo fazia qualquer sentido. Leila semicerrou os olhos, esforçando-se por se manter serena. No horizonte dançavam as ondas de calor, o único movimento à sua volta.
Como se brincassem com ela, as estranhas vozes voltaram a fazer-se ouvir, mais fortes, como num sopro.
- Quem está aí? – Perguntou, virando-se para todos os lados, as botas afundando-se ligeiramente na areia.
As vozes continuavam a fazer-se ouvir indiferentes à aflição da rapariga, cada vez mais alto, com palavras que ela não conseguia identificar.
- Quem está aí? – Voltou a perguntar, num tom que não disfarçava o medo.
As mesmas vozes responderam-lhe naquela língua desconhecida, mas um sussurro arrastado pareceu-lhe familiar: “Leeila”.
- Apareça! – Exclamou, esperando que a voz não tremesse. – O que me quer?
- Maktub, Leila… - Respondeu a voz, envolvendo-a com o seu timbre baixo, como se estivesse em todo o lado.
E, subitamente, quando já achava que só podia estar a sonhar, as paredes cinzentas de pedra voltaram a erguer-se à sua volta e a noite invadiu o espaço. Leila deu consigo novamente no claustro frio e escuro.
Sem perder tempo, agarrou nas suas coisas e transpôs a porta em arco, ansiosa para sair dali e deixar para trás aquele momento aterrador.
A chuva começara, entretanto, a cair, miudinha, tentando infiltrar-se sorrateiramente através da roupa. Sentia-se confusa, assustada. Começou a correr, procurando afastar a sensação aterradora que se instalara no seu íntimo. Não compreendia o que se passara. Teria sido uma alucinação? Cansaço? Poderia ter imaginado tudo?
Continuou a correr e dobrou uma esquina, já muito perto da residência, chocando com algo sólido. Os livros espalharam-se pelo chão. Desnorteada, sentiu duas mãos agarrarem-na pelos braços e impedirem-na de se desequilibrar. Ainda confusa, Leila olhou para cima e distinguiu um vulto alto, a tapar a luz que os candeeiros de rua lançavam, não lhe permitindo distinguir feições.
- Desculpa – ouviu uma voz forte. – Estás bem?
Leila ouviu a pergunta, mas o seu cérebro demorou a descodificá-la. As duas mãos soltaram-na e ela percebeu que o desconhecido se baixara, pondo-se a recolher os livros que tinham caído ao chão. A sua única reacção foi acompanhar os movimentos com o olhar, incapaz de fazer algum gesto. O coração ainda batia desordenadamente, sobrepondo-se a qualquer som que a rodeava.
O estranho à sua frente estendeu-lhe os livros. Agarrou-os, automaticamente, ainda perturbada.
- Obrigada – disse, mal reconhecendo a sua voz. Olhou para cima, tentando distinguir as feições do rapaz alto, mas estava escuro e a pouca luz lançada pelos candeeiros de rua era insuficiente. Pôde apenas distinguir-lhe o cabelo escuro, húmido da chuva, pendendo levemente sobre a testa e as orelhas. Tinha a gola do sobretudo levantada, a abrigá-lo do frio, mas parecia impávido ante a chuva que, entretanto, aumentara de intensidade. Também não tinha chapéu. Um solitário. Como ela.
- Está tudo bem? – Voltou ele a perguntar. Inesperadamente a sua voz teve o dom de a trazer de volta à realidade e, usando os livros como escudo, preparou-se para retomar o caminho.
- Obrigada – repetiu, virando-se em seguida e depressa percorreu a pouca distância que a separava da residência.
As luzes da entrada estavam acesas. Leila abriu a porta e atravessou o átrio, subindo as escadas que levavam ao primeiro andar, a dois e dois. Quase no fim do corredor do primeiro andar, abriu uma porta à esquerda que dava para uma pequena sala, mobilada com sofás, uma mesa redonda, estantes e uma televisão. Era uma sala comum que partilhava com mais três raparigas, cada uma com o seu quarto individual. Felizmente, nenhuma delas se encontrava ali, naquele momento, o que lhe permitiu recolher-se imediatamente ao conforto do seu quarto pequeno e acolhedor, de paredes claras e cortinados leves. As mobílias rústicas, de madeira toscamente pintada de branco, compunham a decoração com o essencial para uma estudante – havia uma cama com um edredão e almofadas coloridas, estantes cheias de livros e objectos pessoais, uma secretária cujo tampo estava constantemente escondido por cadernos e livros, quase não sobrando espaço para o computador portátil, um roupeiro e uma cadeira de baloiço, junto à janela, onde ela gostava de se sentar a ler ou apenas a reflectir nos mais variados acontecimentos.
Contudo, naquela noite não queria reflectir; queria deitar-se e dormir, apagar da memória os estranhos acontecimentos, para os quais não encontrava qualquer explicação. Despiu-se rapidamente, libertando o corpo das roupas frias e molhadas e enfiou um pijama quente. Com uma toalha pôs-se a esfregar o cabelo molhado, secando-o desde a raiz às pontas longas e sedosas que lhe cobriam as costas.
Quando terminou, atirou a toalha para as costas da cadeira em frente à secretária e puxou o edredão para trás, encolhendo-se debaixo do peso da roupa quente. Queria esconder-se do mundo, esquecer-se da sensação assustadora de que não sabia onde estava, da impressão causada pelas vozes que falavam com ela, mas que não conseguira compreender.

Em breve, os cheiros e os sons familiares contribuíam para que uma sensação de conforto a invadisse e os pensamentos desconfortáveis foram, gradualmente, cedendo o lugar ao sono.