Leila olhou para o céu
cinzento, antes de se decidir a sair para o dia frio. Não chovia, mas duvidava
que se mantivesse assim por muito tempo. O largo onde desembocavam vários
edifícios da faculdade apresentava-se praticamente vazio – mais ninguém contrariaria
as constantes mensagens do Inverno, deslocando-se pelas ruas frias e húmidas.
Tinha um trabalho para
terminar e, por mais útil que a internet fosse – e ninguém o podia negar -, a
biblioteca sempre fora um apelo muito maior, com o cheiro característico das
capas dos livros, as estantes com os volumes de diferentes tamanhos e cores.
Atraíam-na as páginas cheias de História e de palavras que alguém quisera
partilhar. E, invariavelmente, acabava por deambular por entre os corredores e
as mesas da biblioteca.
Aquele dia não tinha
sido excepção. Porém, agora que se via na iminência de ter de atravessar as
ruas debaixo de chuva, não podia evitar uma ponta de recriminação por ter saído
naquele fim de tarde, ainda mais sem chapéu-de-chuva.
Sem grandes opções,
fechou melhor o casaco, ajeitou o cachecol e o gorro, apertou os livros contra
o peito e desceu os poucos degraus da entrada da biblioteca, seguindo em passo
acelerado para a residência universitária onde ficava o seu quarto.
Atravessou o largo deserto
e contornou o edifício imponente da faculdade de ciências, em direcção à zona
das residências universitárias. Apenas o som dos seus passos apressados ecoava,
cortando o final de tarde cinzento. Os candeeiros de rua já estavam acesos,
forçando a luz amarelada pelas sombras instaladas.
As ruas pareciam
demasiado vazias, sem vivalma, o que não seria estranho se não se tratasse de
um dia de aulas normal. Leila parou por instantes, olhando em volta. Árvores
sem folhas misturadas com outras de folha perene ladeavam as ruas; nos
edifícios não se viam luzes acesas. Um vento frio, súbito, atravessou o ar,
fazendo rodopiar algumas folhas caídas no chão.
Aconchegou melhor o
casaco, os dedos frios a apertarem os livros. Um súbito mau presságio
invadiu-a. Sentiu-se assustada, sem perceber porquê. O seu cérebro começou a
trabalhar furiosamente, como se procurasse algo. Conhecia cada esquina, cada
recanto da universidade, tantas vezes percorrera aquelas ruas, acompanhada,
sozinha. Mas, naquele momento, havia algo de estranho a envolvê-la, como uma
brisa acentuada de dedos frios a passar-lhe pelo rosto. Instintivamente virou-se,
guiada por uma mão invisível. Um burburinho fez-se ouvir, muito baixo, depois
aumentando gradualmente, até se assemelhar a uma voz sibilante, cujas palavras
se perdiam no ar.
O seu coração disparou.
De onde viria aquele som? Sentia a boca seca, uma vontade crescente de desatar
a correr para o aconchego do quarto, mas os pés estavam pregados ao chão, a
atenção cada vez mais concentrada no murmúrio. Num impulso, e sem que desse por
isso, Leila começou a andar na direcção contrária à que seguia anteriormente,
guiada mais pelo instinto do que pela razão.
A brisa aumentara
sensivelmente, o restolhar das árvores juntando-se aos estranhos murmúrios.
Instintivamente, virou à esquerda, cruzando um arco de pedra e deparando-se com
um claustro escuro. Parou, confusa.
Inesperadamente, foi
como se se tivessem acendido vários focos de luz e as paredes desapareceram
ante os seus olhos espantados. O céu abriu-se e uma claridade imensa inundou o
horizonte. A súbita luminosidade dificultou-lhe a visão e Leila teve de fechar
os olhos, protegendo-os com as mãos. Deu-se subitamente conta de que o vento
parara. Já não estava frio.
O espaço onde se
encontrava mudara. Leila sentiu-o, mais do que o viu. Lentamente reabriu os
olhos, deparando-se com uma superfície brilhante, de um maravilhoso tom
dourado. Franziu a testa, enquanto ao cérebro chegava a mensagem enviada pelos
olhos. Areia?
Onde estaria? Leila passeou
o olhar pelo lugar circundante, identificando uma extensão de areia lisa, que se
estendia pelo horizonte e mais além. À sua volta, as paredes tinham
desaparecido, o céu brilhava azul, claro, e o sol esticava longos dedos de fogo
a toda a volta. Leila rodou sobre ela própria, de olhos arregalados. Para onde se
virasse só via quilómetros e quilómetros de areia, pequenas dunas ao longe e…
mais nada.
O calor tornou-se
insidioso. Levou as mãos trémulas ao cachecol de lã e desenrolou-o, puxando-o,
em gestos lentos. Em seguida, fez deslizar o gorro, descobrindo os cabelos
escuros, apanhados numa trança larga, ao sol. Tudo isto sem que se desse
realmente conta do que estava a fazer. Nada daquilo era real, não percebia o
que se estava a passar, mas era impossível estar ali. Saíra da biblioteca e ia
para casa. Era pleno Inverno. Nada daquilo fazia qualquer sentido. Leila semicerrou
os olhos, esforçando-se por se manter serena. No horizonte dançavam as ondas de
calor, o único movimento à sua volta.
Como se brincassem com
ela, as estranhas vozes voltaram a fazer-se ouvir, mais fortes, como num sopro.
- Quem está aí? –
Perguntou, virando-se para todos os lados, as botas afundando-se ligeiramente
na areia.
As vozes continuavam a
fazer-se ouvir indiferentes à aflição da rapariga, cada vez mais alto, com
palavras que ela não conseguia identificar.
- Quem está aí? –
Voltou a perguntar, num tom que não disfarçava o medo.
As mesmas vozes
responderam-lhe naquela língua desconhecida, mas um sussurro arrastado
pareceu-lhe familiar: “Leeila”.
- Apareça! – Exclamou,
esperando que a voz não tremesse. – O que me quer?
- Maktub, Leila… - Respondeu a voz, envolvendo-a com o seu timbre
baixo, como se estivesse em todo o lado.
E, subitamente, quando
já achava que só podia estar a sonhar, as paredes cinzentas de pedra voltaram a
erguer-se à sua volta e a noite invadiu o espaço. Leila deu consigo novamente
no claustro frio e escuro.
Sem perder tempo,
agarrou nas suas coisas e transpôs a porta em arco, ansiosa para sair dali e
deixar para trás aquele momento aterrador.
A chuva começara,
entretanto, a cair, miudinha, tentando infiltrar-se sorrateiramente através da
roupa. Sentia-se confusa, assustada. Começou a correr, procurando afastar a
sensação aterradora que se instalara no seu íntimo. Não compreendia o que se
passara. Teria sido uma alucinação? Cansaço? Poderia ter imaginado tudo?
Continuou a correr e
dobrou uma esquina, já muito perto da residência, chocando com algo sólido. Os
livros espalharam-se pelo chão. Desnorteada, sentiu duas mãos agarrarem-na pelos
braços e impedirem-na de se desequilibrar. Ainda confusa, Leila olhou para cima
e distinguiu um vulto alto, a tapar a luz que os candeeiros de rua lançavam,
não lhe permitindo distinguir feições.
- Desculpa – ouviu uma
voz forte. – Estás bem?
Leila ouviu a pergunta,
mas o seu cérebro demorou a descodificá-la. As duas mãos soltaram-na e ela
percebeu que o desconhecido se baixara, pondo-se a recolher os livros que
tinham caído ao chão. A sua única reacção foi acompanhar os movimentos com o
olhar, incapaz de fazer algum gesto. O coração ainda batia desordenadamente,
sobrepondo-se a qualquer som que a rodeava.
O estranho à sua frente
estendeu-lhe os livros. Agarrou-os, automaticamente, ainda perturbada.
- Obrigada – disse, mal
reconhecendo a sua voz. Olhou para cima, tentando distinguir as feições do
rapaz alto, mas estava escuro e a pouca luz lançada pelos candeeiros de rua era
insuficiente. Pôde apenas distinguir-lhe o cabelo escuro, húmido da chuva, pendendo
levemente sobre a testa e as orelhas. Tinha a gola do sobretudo levantada, a
abrigá-lo do frio, mas parecia impávido ante a chuva que, entretanto, aumentara
de intensidade. Também não tinha chapéu. Um solitário. Como ela.
- Está tudo bem? –
Voltou ele a perguntar. Inesperadamente a sua voz teve o dom de a trazer de
volta à realidade e, usando os livros como escudo, preparou-se para retomar o
caminho.
- Obrigada – repetiu,
virando-se em seguida e depressa percorreu a pouca distância que a separava da
residência.
As luzes da entrada
estavam acesas. Leila abriu a porta e atravessou o átrio, subindo as escadas
que levavam ao primeiro andar, a dois e dois. Quase no fim do corredor do
primeiro andar, abriu uma porta à esquerda que dava para uma pequena sala,
mobilada com sofás, uma mesa redonda, estantes e uma televisão. Era uma sala
comum que partilhava com mais três raparigas, cada uma com o seu quarto
individual. Felizmente, nenhuma delas se encontrava ali, naquele momento, o que
lhe permitiu recolher-se imediatamente ao conforto do seu quarto pequeno e acolhedor,
de paredes claras e cortinados leves. As mobílias rústicas, de madeira toscamente
pintada de branco, compunham a decoração com o essencial para uma estudante –
havia uma cama com um edredão e almofadas coloridas, estantes cheias de livros
e objectos pessoais, uma secretária cujo tampo estava constantemente escondido
por cadernos e livros, quase não sobrando espaço para o computador portátil, um
roupeiro e uma cadeira de baloiço, junto à janela, onde ela gostava de se
sentar a ler ou apenas a reflectir nos mais variados acontecimentos.
Contudo, naquela noite
não queria reflectir; queria deitar-se e dormir, apagar da memória os estranhos
acontecimentos, para os quais não encontrava qualquer explicação. Despiu-se
rapidamente, libertando o corpo das roupas frias e molhadas e enfiou um pijama
quente. Com uma toalha pôs-se a esfregar o cabelo molhado, secando-o desde a
raiz às pontas longas e sedosas que lhe cobriam as costas.
Quando terminou, atirou
a toalha para as costas da cadeira em frente à secretária e puxou o edredão
para trás, encolhendo-se debaixo do peso da roupa quente. Queria esconder-se do
mundo, esquecer-se da sensação assustadora de que não sabia onde estava, da
impressão causada pelas vozes que falavam com ela, mas que não conseguira
compreender.
Em breve, os cheiros e
os sons familiares contribuíam para que uma sensação de conforto a invadisse e
os pensamentos desconfortáveis foram, gradualmente, cedendo o lugar ao sono.
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